{"id":998,"date":"2020-05-05T13:00:01","date_gmt":"2020-05-05T12:00:01","guid":{"rendered":"http:\/\/arfar.com\/cpcsa\/?page_id=998"},"modified":"2020-08-30T16:57:50","modified_gmt":"2020-08-30T15:57:50","slug":"historia-do-csa","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=998","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria da ra\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria de uma ra\u00e7a \u00e9 o conhecimento que resulta da jun\u00e7\u00e3o da base documental escrita com as tradi\u00e7\u00f5es e contos transmitidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. No fundo, da cultura dos povos. Contudo, h\u00e1 um factor comum a todas as ra\u00e7as caninas actuais. Todas elas est\u00e3o indelevelmente ligadas \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o das civiliza\u00e7\u00f5es e da humanidade, onde as migra\u00e7\u00f5es planet\u00e1rias que foram ocorrendo ao longo dos mil\u00e9nios assumiram relev\u00e2ncia incontorn\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Se no in\u00edcio se dava primazia \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas funcionais que melhor dotavam os c\u00e3es para o trabalho, hoje h\u00e1 ra\u00e7as onde, de todo, essas caracter\u00edsticas n\u00e3o existem. Procura-se antes, caracter\u00edsticas que os tornem excelentes animais de companhia e, em outro dom\u00ednio, belos exemplares de participa\u00e7\u00e3o em exposi\u00e7\u00f5es e concursos de morfologia.<\/p>\n\n\n\n<p>O C\u00e3o da Serra de Aires, nas suas exclusivas peculiaridades que o diferenciam e evidenciam a n\u00edvel mundial &#8211; \u00e9 o \u00fanico c\u00e3o pastor de p\u00ealo comprido que n\u00e3o apresenta sub-p\u00ealo &#8211; alia de forma referencial duas caracter\u00edsticas: beleza e funcionalidade. De c\u00e3o humilde, com excepcionais aptid\u00f5es para o trabalho, fez uma not\u00e1vel transi\u00e7\u00e3o para exposi\u00e7\u00f5es de morfologia, obtendo resultados gloriosos em campeonatos nacionais e internacionais, sem, contudo, perder as suas caracter\u00edsticas diferenciadoras de c\u00e3o de pastor de condu\u00e7\u00e3o de rebanhos. Dotado de uma intelig\u00eancia excepcional, a sua personalidade \u00e9 marcante. \u00c9 um c\u00e3o r\u00fastico e vers\u00e1til, onde sobressai a sua grande adaptabilidade. <\/p>\n\n\n\n<p>O seu forte instinto de pastoreio impele-o a pastorear qualquer coisa. O que lhe \u00e9 mais natural, ovelhas e cabras, como tamb\u00e9m piaras de cavalos, manadas de vacas, varas de porcos, gansos, galinhas\u2026 Em passeios com a fam\u00edlia, n\u00e3o perde essa capacidade intr\u00ednseca, sendo not\u00f3rio o seu comportamento sempre alerta, em incans\u00e1vel movimento circular \u00e0 volta dos elementos familiares, tentando mant\u00ea-los juntos como se estes fossem o seu rebanho. Sendo um c\u00e3o criado e desenvolvido para o trabalho, foi essa capacidade singular aliada \u00e0 sua adaptabilidade que possibilitou a sua f\u00e1cil e eficaz passagem para c\u00e3o de guarda e de companhia, fun\u00e7\u00e3o mais compagin\u00e1vel com a viv\u00eancia dos nossos dias. Uma mais valia a respeitar e preservar e a ter em aten\u00e7\u00e3o nos julgamentos das provas de morfologia.<\/p>\n\n\n\n<p>De temperamento vincado, \u00e9 de grande fidelidade ao seu dono, dele se dizendo que \u201c<em>\u00e9 c\u00e3o de um s\u00f3 dono<\/em>\u201d, express\u00e3o comum, por muitos ami\u00fade repetida. Anci\u00e3os do seu solar, com mem\u00f3ria de factos de tempos passados, referem hist\u00f3rias de c\u00e3es que se recusaram a acompanhar o ajudante e o rebanho na aus\u00eancia do pastor. Esta liga\u00e7\u00e3o do c\u00e3o com o dono atesta bem o grande e s\u00f3lido car\u00e1cter que anima o C\u00e3o da Serra de Aires.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Origin\u00e1rio do Alentejo, mais concretamente da freguesia de Santo Aleixo, concelho de Monforte, as suas origens perdem-se na mem\u00f3ria, dos tempos e das pessoas. O seu nome adv\u00e9m do Monte de Serra de Aires, propriedade do Conde de Castro Guimar\u00e3es. Perdura uma teoria que o c\u00e3o actual, na sua morfologia bem distinta e fixada, deriva de um pequeno c\u00e3o de pastoreio existente no Alentejo, que o Conde de Castro Guimar\u00e3es, atrav\u00e9s de um seu feitor de origem francesa, melhorou, cruzando-o com c\u00e3es origin\u00e1rios de Fran\u00e7a, da ra\u00e7a Berger de Brie, conhecido, tamb\u00e9m, por Briard.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ambiente aberto como o Alentejo, as longas dist\u00e2ncias, a grande dispers\u00e3o de propriedades e povoa\u00e7\u00f5es, a generalizada priva\u00e7\u00e3o que afectava as suas popula\u00e7\u00f5es, admitir que o trabalho de selec\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o levado a cabo, no dealbar do s\u00e9c. XX, na propriedade do Monte de Serra de Aires, se propagou e controlou o efectivo da ra\u00e7a em toda a sua regi\u00e3o de dispers\u00e3o, poder\u00e1 encontrar dificuldades de sustenta\u00e7\u00e3o. Desde logo, devido ao grande n\u00famero de efectivos \u00e0 data existentes, com caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas e comportamentais bem definidas e fixadas. Teria, ainda, de se admitir, que a partir de certo momento, e em dada altura, os efectivos teriam como proveni\u00eancia o Monte de Serra de Aires, com pouca ou nenhuma influ\u00eancia externa nova a entrar na ra\u00e7a, o que n\u00e3o \u00e9 plaus\u00edvel dada a pr\u00e1tica secular da transum\u00e2ncia que, at\u00e9 tempos n\u00e3o muito distantes, sempre ocorreu entre a regi\u00e3o da Serra da Estrela, a norte, e as plan\u00edcies alentejanas. Estudos realizados sobre a diversidade do DNA mitocondrial de ra\u00e7as aut\u00f3ctones portuguesas comprovam isso mesmo, a exist\u00eancia de partilha de hapl\u00f3tipos entre o C\u00e3o da Serra da Estrela e o C\u00e3o da Serra de Aires. Ali\u00e1s, as migra\u00e7\u00f5es de popula\u00e7\u00f5es e animais em tempos hist\u00f3ricos, s\u00e3o entendidas e comummente aceites como o grande factor de dispers\u00e3o e de surgimento de novas ra\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem nunca ter sido um c\u00e3o muito conhecido fora da sua regi\u00e3o de origem, como c\u00e3o de trabalho o C\u00e3o da Serra de Aires era muito popular e utilizado, abarcando a sua distribui\u00e7\u00e3o as planuras do Alentejo e do Ribatejo. Essencial para a condu\u00e7\u00e3o dos rebanhos entre zonas de pastagem, a sua grande intelig\u00eancia tornava-o ex\u00edmio no seu controle durante a passagem pela bordadura e proximidade de terrenos cultivados.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiel ao rebanho e ao dono, territorial, discreto e reservado, por norma, n\u00e3o d\u00e1 a m\u00e3o a estranhos. Estas caracter\u00edsticas foram, por certo, procuradas e perpetuadas nos cruzamentos de sucessivas gera\u00e7\u00f5es, muito por for\u00e7a do grande isolamento que a imensid\u00e3o das plan\u00edcies alentejanas sempre imp\u00f4s aos seus residentes. A geografia peneplana do Alentejo, onde s\u00e3o raros e quase inexistentes os grandes acidentes orogr\u00e1ficos, dificultava o confinamento do rebanho e promovia o risco de dispers\u00e3o dos animais. Era, por isso, necess\u00e1rio um c\u00e3o com grande percep\u00e7\u00e3o territorial, animado de sentidos de guarda e protec\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o se deixasse seduzir por eventuais aliciamentos de estranhos que porventura junto dele arrivassem. O pastor n\u00e3o podia arriscar a ficar sem o seu fiel companheiro e ex\u00edmio auxiliar.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a guarda tamb\u00e9m pudesse ser exercida pelo C\u00e3o da Serra de Aires, essa fun\u00e7\u00e3o era preferencialmente atribu\u00edda a um outro can\u00eddeo de maior porte, tamb\u00e9m aut\u00f3ctone, o Rafeiro do Alentejo. O pequeno porte do C\u00e3o da Serra de Aires facilitava o sustento, quando, ao tempo, a frugalidade da alimenta\u00e7\u00e3o era ditada pela priva\u00e7\u00e3o e escassez de alimento. Por outro lado, na mordida que impunha respeito e ordem, as ovelhas n\u00e3o eram t\u00e3o castigadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da d\u00e9cada de 50-60 do S\u00e9culo XX, as novas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas e a extensa utiliza\u00e7\u00e3o de aramado na delimita\u00e7\u00e3o das propriedades ditaram o decl\u00ednio dos efectivos da ra\u00e7a. A sua fun\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era t\u00e3o necess\u00e1ria. Mas foi nesta altura, que um aturado trabalho de prospec\u00e7\u00e3o permitiu identificar os animais que serviram de refer\u00eancia \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do primeiro estal\u00e3o da ra\u00e7a, publicado em 1954. Datam, tamb\u00e9m, destes anos iniciais, o registo dos primeiros animais inscritos no Livro de Origens Portugu\u00eas: Montemor (5.947), Arr\u00e1bida (5.994), Massanica (5.999) e Pulg\u00e3o (6.000).<\/p>\n\n\n\n<p>O estal\u00e3o de 1954 definia para os machos uma altura ao garrote de 42 a 48 cm, e para as f\u00eameas de 40 a 46 cm. A \u00faltima revis\u00e3o do estal\u00e3o, bem detalhada e pormenorizada, publicada em 2008, define alturas de 45 a 55 cm e de 42 a 52 cm, respectivamente para machos e f\u00eameas. N\u00e3o ser\u00e1 alheio a este crescimento dos c\u00e3es, a altera\u00e7\u00e3o da sua fun\u00e7\u00e3o primordial de c\u00e3o de condu\u00e7\u00e3o e de protec\u00e7\u00e3o e guarda de rebanhos para animal de companhia, ao qual estar\u00e1 associado a introdu\u00e7\u00e3o na alimenta\u00e7\u00e3o de ra\u00e7\u00f5es que apregoam conterem os ingredientes necess\u00e1rios a uma alimenta\u00e7\u00e3o completa que promove a sa\u00fade e o bem-estar animal.<\/p>\n\n\n\n<p>As exposi\u00e7\u00f5es e os concursos de morfologia podem, tamb\u00e9m eles, estar a promover a altera\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas t\u00edpicas. Nem sempre orientadas por cit\u00e9rios relacionados com a fun\u00e7\u00e3o, essas altera\u00e7\u00f5es podem fazer emergir uma diverg\u00eancia morfol\u00f3gica entre os c\u00e3es de trabalho e os c\u00e3es de exposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante para o futuro da ra\u00e7a que se mantenha uma permanente supervis\u00e3o do tipo morfol\u00f3gico e que se promova o cruzamento controlado entre animais de exposi\u00e7\u00e3o e de trabalho, para assim se evitarem diverg\u00eancias indesej\u00e1veis da sua morfologia t\u00edpica. Por indissoci\u00e1vel, imp\u00f5e-se igualmente preservar o temperamento de trabalho do C\u00e3o da Serra de Aires, garante do seu car\u00e1cter e habilidade natural. A morfologia e o temperamento s\u00e3o pilares estruturais da fun\u00e7\u00e3o. O C\u00e3o da Serra de Aires \u00e9, inquestionavelmente, um relevante componente do patrim\u00f3nio gen\u00e9tico portugu\u00eas. A sua tipicidade e unicidade conferem-lhe atributos exclusivos que importa defender e preservar. A sua hist\u00f3ria \u00e9 uma hist\u00f3ria de sobreviv\u00eancia. Uma sobreviv\u00eancia amoldada por uma rusticidade constru\u00edda nas agruras da adversidade, que um temperamento convicto e uma intelig\u00eancia excepcional guindou para um lugar cimeiro e referencial das ra\u00e7as portuguesas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de uma ra\u00e7a \u00e9 o conhecimento que resulta da jun\u00e7\u00e3o da base documental escrita com as tradi\u00e7\u00f5es e contos transmitidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. No fundo, da cultura dos povos. Contudo, h\u00e1 um factor comum a todas as ra\u00e7as caninas actuais. 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