{"id":1247,"date":"2020-11-16T17:06:18","date_gmt":"2020-11-16T16:06:18","guid":{"rendered":"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1247"},"modified":"2020-11-16T18:08:20","modified_gmt":"2020-11-16T17:08:20","slug":"a-via-terrestre","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1247","title":{"rendered":"A via terrestre"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por: Jo\u00e3o Ribeiro, Pedro Delerue, Helena Dornellas Cysneiros<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o dos c\u00e3es pastores est\u00e1 indelevelmente ligada \u00e0 pr\u00e1tica da transum\u00e2ncia, seja ela de longas ou de curtas dist\u00e2ncias. Recuar no tempo ajuda a melhor compreender este fen\u00f3meno, porquanto nos descontextualiza da adquirida organiza\u00e7\u00e3o das sociedades modernas que todas as necessidades satisfaz, e nos transporta para realidades idas e seculares, de vastas regi\u00f5es esparsamente povoadas em que o modo de vida era ditado pela espartana escassez de recursos, numa fadigosa e permanente labuta pela sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do homem com o meio \u00e9 contru\u00edda em contexto primordial adverso. A agricultura e a pastor\u00edcia s\u00e3o express\u00f5es de dom\u00ednio sobre a imprevisibilidade da Natureza. Os ciclos anuais das esta\u00e7\u00f5es ditam as regras das pr\u00e1ticas agropecu\u00e1rias. Gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, desloca\u00e7\u00f5es seculares de homens e animais abrem extensas rotas calcorreadas na procura de melhores terras de apascentamento para os animais, que h\u00e3o de garantir a subsist\u00eancia e a sobreviv\u00eancia aos rigores do clima.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, sujeita aos climas Atl\u00e2ntico e Mediterr\u00e2nico, disp\u00f5e de condi\u00e7\u00f5es que favoreceram a pr\u00e1tica transumante. Importante j\u00e1 na idade m\u00e9dia, \u00e9 no s\u00e9culo XVIII que se regista a sua maior express\u00e3o. A industrializa\u00e7\u00e3o dos processos de fabrico promoveu a demanda por l\u00e3 de qualidade. O n\u00famero de animais e de rebanhos sofreu grande incremento, e com ele a necessidade de zonas de pastagem. Os deslocamentos passaram a ser maiores e com mais animais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esta altura, existiam na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica in\u00fameras rotas de transum\u00e2ncia, em particular em territ\u00f3rio espanhol, onde desde o s\u00e9culo XII, com Afonso VIII, e s\u00e9culo XIII, com Afonso X, Rei de Castela e Le\u00e3o, a pastor\u00edcia, considerada de grande import\u00e2ncia econ\u00f3mica, gozava de especial protec\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e institucional. Em Portugal, embora de menor dimens\u00e3o e menos organizada, a actividade transumante foi objecto de alguma regulamenta\u00e7\u00e3o nos reinados de D. Jo\u00e3o II e seguintes at\u00e9 ao reinado de D. Jo\u00e3o IV.<\/p>\n\n\n\n<p>Da Serra da Estrela seguiam os animais para Norte, para a Serra de Montemuro, para Oeste, para os campos do Baixo Mondego, para Este, para os campos de Idanha e para Sul, para os Campos de Ourique. Os rebanhos, alguns de consider\u00e1vel tamanho, com v\u00e1rios milhares de cabe\u00e7as, eram acompanhados por c\u00e3es, que os ladeavam, uns nos flancos, outros na rectaguarda. Burros seguiam-nos, a fechar o cortejo, transportando nas albardas mantimentos e pertences. Nos alforges acomodavam-se os borregos nascidos durante os deslocamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto \u00e0 fronteira, por vezes transporta, refregas existiam, na reclama\u00e7\u00e3o de pastos que os animais n\u00e3o sabiam ser de um lado ou do outro. Encontrado o pagamento de satisfa\u00e7\u00e3o, conflitos resolvidos, certo \u00e9 que a actividade transumante se estabeleceu e permaneceu durante s\u00e9culos na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica como actividade econ\u00f3mica de grande import\u00e2ncia, influenciadora e criadora de h\u00e1bitos e culturas, de organiza\u00e7\u00f5es sociais, constituindo, sem d\u00favida, uma das maiores express\u00f5es do patrim\u00f3nio gen\u00e9tico e cultural dos povos da bacia Mediterr\u00e2nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Robustecidos pelas longas desloca\u00e7\u00f5es, os animais, beneficiados fisicamente, viam apurada uma rusticidade que induzia melhorias gen\u00e9ticas, a c\u00e3es e gados. De ambos os lados da fronteira, eram comuns os c\u00e3es de gado, amastinados e de grande porte. At\u00e9 aos finais do s\u00e9culo XIX, os rebanhos eram maioritariamente acompanhados por este tipo de c\u00e3es, s\u00f3 a partir da\u00ed se generalizando a utiliza\u00e7\u00e3o de c\u00e3es de condu\u00e7\u00e3o. A intensifica\u00e7\u00e3o da agricultura, com ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas cada vez mais extensas, obrigava a cuidados acrescidos na passagem dos rebanhos pelas proximidades das terras cultivadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, s\u00f3 em Portugal, em terras planas, emergiu uma ra\u00e7a canina de condu\u00e7\u00e3o de rebanhos de p\u00ealo comprido, o C\u00e3o da Serra de Aires. Em Espanha, unicamente em terras de montanha, nos Piren\u00e9us, \u00e9 encontrada ra\u00e7a similar: o Pastor dos Piren\u00e9us e o Gos d\u2019Atura (Pastor da Catalunha). A similitude morfol\u00f3gica entre estas tr\u00eas ra\u00e7as \u00e9 evidente e ineg\u00e1vel. Por\u00e9m, \u00e9 cada vez mais apontada como certa, por v\u00e1rios autores, a exist\u00eancia de evid\u00eancias que colocam estas tr\u00eas ra\u00e7as num ramo \u00e0 parte das suas cong\u00e9neres continentais europeias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"924\" height=\"557\" src=\"http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/genealogia_caes_pastores.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1249\" srcset=\"http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/genealogia_caes_pastores.png 924w, http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/genealogia_caes_pastores-300x181.png 300w, http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/genealogia_caes_pastores-768x463.png 768w\" sizes=\"(max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O desaparecimento dos grandes predadores, ou a sua remiss\u00e3o para \u00e1reas remotas pouco perturbadas, longe das popula\u00e7\u00f5es humanas, minimizou as necessidades de defesa e criou a oportunidade para a emerg\u00eancia, diversifica\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de ra\u00e7as de m\u00e9dio porte, mais \u00e1geis e mais dotadas para a fun\u00e7\u00e3o de condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, profusamente retalhada por rotas ancestrais de transum\u00e2ncia, o decl\u00ednio desta actividade a partir do s\u00e9culo XIX, t\u00e3o importante nos s\u00e9culos precedentes, n\u00e3o criou as condi\u00e7\u00f5es, verificadas na Europa Setentrional e Oriental, para a difus\u00e3o por via terrestre das ra\u00e7as de condu\u00e7\u00e3o ib\u00e9ricas. A orografia acidentada, onde mesetas interiores elevadas com altitude m\u00e9dia de 650 metros, bordeadas por montanhas com picos que v\u00e3o dos 1.000 a mais de 3.000 metros, e rios com percursos extensos e de largura consider\u00e1vel, constitu\u00eda obst\u00e1culo de dif\u00edcil transposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas altas terras da Cant\u00e1bria nasce aquele que \u00e9 maior rio de Espanha com curso integral em solo espanhol, o Ebro. Contrariamente a todos os outros grande rios Ib\u00e9ricos, com percurso para Oeste em direc\u00e7\u00e3o ao Atl\u00e2ntico, o Ebro desenvolve-se para Este, desaguando no Mediterr\u00e2neo. Na sua caminhada de 930 km at\u00e9 o mar, drena uma bacia hidrogr\u00e1fica com mais de 85.000 km<sup>2<\/sup>. Cortando imponentes relevos, descansa em largos meandros ao atravessar as planuras da meseta, irrigando vastas e f\u00e9rteis terras de cultivo. Num \u00faltimo esfor\u00e7o, rasga o complexo Aligars-Serra Fulletera antes de se lan\u00e7ar em largo delta nas \u00e1guas do mar das Baleares.<\/p>\n\n\n\n<p>Com as suas enchentes mais frequentes de Outubro a Mar\u00e7o, que se podem prolongar at\u00e9 Maio, alimentadas pelo degelo dos Piren\u00e9us, o Ebro constitui um obst\u00e1culo consider\u00e1vel, de dif\u00edcil transposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1015\" height=\"801\" src=\"http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/iberia_canadas.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1250\" srcset=\"http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/iberia_canadas.png 1015w, http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/iberia_canadas-300x237.png 300w, http:\/\/cpcsa.pt\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/iberia_canadas-768x606.png 768w\" sizes=\"(max-width: 767px) 89vw, (max-width: 1000px) 54vw, (max-width: 1071px) 543px, 580px\" \/><figcaption>Rotas transumantes na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As rotas de transum\u00e2ncia do nordeste da pen\u00ednsula, quer as pirenaicas, a norte, quer as do sistema ib\u00e9rico, a sul, nunca transp\u00f5em o rio Ebro. N\u00e3o h\u00e1 liga\u00e7\u00e3o entre estas rotas e as da rede do centro da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, confinantes, na Estremadura espanhola, com as do Alentejo portugu\u00eas. A inexist\u00eancia de c\u00e3es de pastor de p\u00ealo comprido nesta vasta \u00e1rea central da pen\u00ednsula \u00e9, tamb\u00e9m, indicador que importa relevar e considerar. Na sua conjuga\u00e7\u00e3o, estas evid\u00eancias comprometem, sen\u00e3o mesmo inviabilizam a via terreste de comunica\u00e7\u00e3o e de contacto do Pastor dos Piren\u00e9us com o C\u00e3o da Serra de Aires. A via de comunica\u00e7\u00e3o, a existir, teria de ser outra, que n\u00e3o a terreste.<\/p>\n\n\n\n<p>O Pastor dos Piren\u00e9us tem, tal como o C\u00e3o da Serra de Aires, uma hist\u00f3ria propensa ao fant\u00e1stico, a ponto de o considerarem, na sua terra natal, como descendente do urso, que nele veem similitude morfol\u00f3gica e de andamento(!), ou, noutra vers\u00e3o, resultado de um cruzamento entre c\u00e3o e raposa. Com a imagina\u00e7\u00e3o por limite, fica-nos o encanto da resposta m\u00e1gica que, em v\u00e3 tentativa, procura, na fantasiada explica\u00e7\u00e3o, obter resposta para a insatisfeita inquietude de uma origem incompreendida e pouco conhecida.<\/p>\n\n\n\n<p>Da fantasia uma certeza. A origem do Pastor dos Piren\u00e9us \u00e9 diferente da de todas as outras ra\u00e7as francesas de c\u00e3o pastor, sendo que o que o distingue \u00e9 a sua morfologia, aquilo que tem em comum com o nosso C\u00e3o da Serra de Aires, e que t\u00e3o bem foi notado pelos ilustres criadores do seu estal\u00e3o original.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais racionais, alguns naturalistas aventam a hip\u00f3tese da autoctonidade da ra\u00e7a. Apesar de tudo, a sua hist\u00f3ria s\u00f3 come\u00e7ou a ser escrita em 1921, sendo necess\u00e1rio esperar at\u00e9 1925 para que seja reconhecida como ra\u00e7a aut\u00f3noma, obtendo no ano seguinte o seu reconhecimento oficial pela Soci\u00e9t\u00e9 Centrale Canine. \u00c9 na d\u00e9cada seguinte que em Portugal se iniciam, tamb\u00e9m, os trabalhos de reconhecimento do C\u00e3o de Serra de Aires. De origem igualmente envolta em aur\u00e9ola imagin\u00e1ria, poder\u00e1 n\u00e3o ser totalmente descabido considerar a concept\u00edvel autoctonidade da ra\u00e7a, atentando na premonit\u00f3ria observa\u00e7\u00e3o dos doutores Filipe Morgado Romeiras e Ant\u00f3nio Cabral, que nele viram um morf\u00f3tipo do pequeno c\u00e3o pastor franc\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1239\">Origem <\/a>| <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1241\">Evolu\u00e7\u00e3o Convergente<\/a> | <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1247\">Via terrestre<\/a> | <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1252\">Via mar\u00edtima<\/a> | <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1255\">Evid\u00eancias gen\u00e9ticas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Jo\u00e3o Ribeiro, Pedro Delerue, Helena Dornellas Cysneiros A evolu\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o dos c\u00e3es pastores est\u00e1 indelevelmente ligada \u00e0 pr\u00e1tica da transum\u00e2ncia, seja ela de longas ou de curtas dist\u00e2ncias. 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