{"id":1239,"date":"2020-11-16T16:52:43","date_gmt":"2020-11-16T15:52:43","guid":{"rendered":"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1239"},"modified":"2020-11-18T13:53:13","modified_gmt":"2020-11-18T12:53:13","slug":"origem-do-cao-da-serra-de-aires","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1239","title":{"rendered":"Origem do C\u00e3o da Serra de Aires"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Uma perspectiva<\/strong><br><em>Por: Jo\u00e3o Ribeiro, Pedro Delerue, Helena Dornellas Cysneiros<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mem\u00f3rias perdidas, fragmentos recuperados, notas rasuradas em margens de p\u00e1ginas, imagens, ilustra\u00e7\u00f5es, gravuras, pe\u00e7as cer\u00e2micas, rica ou toscamente decoradas, pedra, madeira, osso, marfim, do mais nobre ao mais humilde material, tudo serviu, para o homem, em acto de venera\u00e7\u00e3o, ilustrar para a posterioridade, atravessando s\u00e9culos, mil\u00e9nios, a rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica que estabeleceu com aquele que sempre o acompanhou na constru\u00e7\u00e3o de civiliza\u00e7\u00f5es, umas extintas, outras ainda pujantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Voluntariamente, prescindiu dos seus atributos de predador, modificou o seu comportamento, adaptou-se \u00e0s fun\u00e7\u00f5es que n\u00e3o lhe eram pr\u00f3prias, mas \u00fateis \u00e0quele que aceitou como companheiro de viagem, de infort\u00fanio e gl\u00f3ria, de bonan\u00e7a e de tempestade, pela hist\u00f3ria dos tempos, at\u00e9 uma actualidade que lhe concede reconhecidos direitos, de quase par.<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00e9voa dos tempos ofuscou, e mant\u00eam misteriosa, a clareza desta rela\u00e7\u00e3o \u00edmpar, uma rela\u00e7\u00e3o de metamorfose, de aquisi\u00e7\u00e3o de novos comportamentos, de novas formas, de cont\u00ednua adapta\u00e7\u00e3o a novas fun\u00e7\u00f5es, e que dele fazem o mam\u00edfero mais vers\u00e1til, sem igual, nenhum outro existindo que se lhe compare.<\/p>\n\n\n\n<p>A arqueologia e a ci\u00eancia aliam-se no interesse da descoberta, da compreens\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o que, algures, num tempo remoto, o entrecruzamento, fortuito, de dois seres, convergiu numa evolu\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica, inquebrant\u00e1vel, de benef\u00edcio comum.<\/p>\n\n\n\n<p>De onde veio, como veio? N\u00e3o \u00e9 certo, mas \u00e9 cada vez mais incerto. Da \u00c1sia parece ser o consenso geral, mas como\u2026 a\u00ed o consenso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p>O mist\u00e9rio que envolve a origem das ra\u00e7as de c\u00e3o de pastor e de condu\u00e7\u00e3o de rebanhos \u00e9 partilhado pelo nosso bem caracter\u00edstico e \u00fanico C\u00e3o da Serra de Aires. Como seria de esperar, partilha uma origem comum a todas as outras ra\u00e7as, mas houve um tempo em que encontrou a sua individualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua conhecida hist\u00f3ria, ainda recente, a aus\u00eancia e raridade de refer\u00eancias hist\u00f3ricas, contribuem para manter o encantamento do mist\u00e9rio da sua origem, que persiste em colar-se-lhe e se recusa a abandon\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A d\u00favida, ainda \u00a0hoje n\u00e3o desfeita, existia, j\u00e1, no esp\u00edrito dos dois primeiros ilustres estudiosos do C\u00e3o da Serra de Aires, que procuraram e identificaram os primeiros animais e definiram o seu primeiro estal\u00e3o, Dr. Filipe Morgado Romeiras e Dr. Ant\u00f3nio Cabral: \u201c<em>Os c\u00e3es existentes, em n\u00famero t\u00e3o elevado e com caracter\u00edsticas t\u00e3o fixadas, est\u00e3o de tal forma diferenciados e mais se assemelham ao C\u00e3o de Gado dos Piren\u00e9us, que cuidamos serem, antes, um ramo desta ra\u00e7a, que se pretendeu melhorar com o Berger de Brie. A n\u00e3o ser esta a raz\u00e3o, nem se compreende porque se escolheu para c\u00e3o de gado no Alentejo uma ra\u00e7a que dificilmente se adaptaria ao clima desta regi\u00e3o<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A inaptid\u00e3o do Berger de Brie para o clima do Alentejo \u00e9 abordada e desde logo posta em evid\u00eancia. A ter existido algum cruzamento entre este c\u00e3o e o C\u00e3o da Serra de Aires, mais n\u00e3o seja pelo que \u00e9 comummente dito e repetido, \u00e9 plaus\u00edvel que isso possa ter ocorrido no Monte de Serra d\u2019Aires, mas com dificuldade se pode aceitar que os resultados desses cruzamentos se tenham propagado pela regi\u00e3o e pelo Alentejo. Atente-se novamente na afirma\u00e7\u00e3o dos distintos m\u00e9dicos veterin\u00e1rios: \u201c<em>Os c\u00e3es existentes, em n\u00famero t\u00e3o elevado e com caracter\u00edsticas t\u00e3o fixadas, est\u00e3o de tal forma diferenciados (\u2026)<\/em>\u201d. A ser assim, e estando o c\u00e3o t\u00e3o bem diferenciado, perfeitamente adaptado ao clima do Alentejo e \u00e0 fun\u00e7\u00e3o, que benef\u00edcio adviria de um c\u00e3o como o Berger de Brie? Intelig\u00eancia? N\u00e3o. Funcionalidade? N\u00e3o. Temperamento? N\u00e3o. Morfologia? Seguramente que n\u00e3o. Os pastores da d\u00e9cada de quarenta dos anos de mil e novecentos, pessoas de poucas posses, de recursos limitados, com pouca forma\u00e7\u00e3o e instru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o valorizariam esse aspecto. A aptid\u00e3o para o trabalho sim. Altura? Pouco prov\u00e1vel. Para qu\u00ea um c\u00e3o de maior porte se j\u00e1 tinham o Rafeiro Alentejano? Al\u00e9m disso, um c\u00e3o de maior porte \u00e9 mais exigente em alimento, de mais dif\u00edcil sustenta\u00e7\u00e3o. E dois c\u00e3es pequenos fazem mais trabalho que um grande, especialmente no concernente ao trabalho de condu\u00e7\u00e3o de rebanhos. De facto, dificilmente se vislumbram vantagens para a introdu\u00e7\u00e3o do Berger de Brie. Mesmo o crit\u00e9rio da beleza \u00e9 altamente question\u00e1vel. O calor e inclem\u00eancia do sol alentejano impunha a tosquia anual ao C\u00e3o de Serra de Aires, ao mesmo tempo que as ovelhas e com a mesma tesoura.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pastores, tal como os ca\u00e7adores, praticavam uma selec\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, n\u00e3o se coibindo, por terem ouvido, de irem longe fazer <em>uma monta<\/em>, ou, sol\u00edcitos, pedir por cachorro que, em esperan\u00e7a, fosse como seus afamados progenitores, satisfazendo ansiada ambi\u00e7\u00e3o de possuir exemplar com iguais e celebradas aptid\u00f5es para o trabalho, prevalentes sobre crit\u00e9rios morfol\u00f3gicos ou quaisquer outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, e por esses tempos, o Alentejo era uma regi\u00e3o deprimida, causticada pela inclem\u00eancia de um clima adverso, severo para com os seus, onde o alimento era aforrado com abnega\u00e7\u00e3o e partilhado na necessidade da entreajuda, entre homens e animais de sustento e de trabalho. A m\u00edngua da escassez ditava a lei da sobreviv\u00eancia, de uns e de outros, mas menos dos animais. C\u00e3o dotado era estimado, valorizado pelas suas aptid\u00f5es. O contr\u00e1rio impunha a quase certa indiferen\u00e7a e a sobreviv\u00eancia condicionada.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, \u00e0 data, e atentando aos seus escritos, se depreende que j\u00e1 os Doutores Filipe Morgado Romeiras e Ant\u00f3nio Cabral consideravam inveros\u00edmil o contributo do Pastor de Brie para o melhoramento da ra\u00e7a no seu todo. Premonit\u00f3rios, e somente pela an\u00e1lise morfol\u00f3gica, foram capazes de discernir e vislumbrar a rela\u00e7\u00e3o com o C\u00e3o de Gado dos Piren\u00e9us. Admiravelmente, a ci\u00eancia de hoje, com a pan\u00f3plia de meios e tecnologia avan\u00e7ada de que disp\u00f5e, parece estar a dar-lhes raz\u00e3o. Estudos gen\u00e9ticos recentes, realizados por grupos de investiga\u00e7\u00e3o distintos, apontam na mesma direc\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1239\">Origem <\/a>| <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1241\">Evolu\u00e7\u00e3o Convergente<\/a> | <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1247\">Via terrestre<\/a> | <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1252\">Via mar\u00edtima<\/a> | <a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1255\">Evid\u00eancias gen\u00e9ticas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma perspectivaPor: Jo\u00e3o Ribeiro, Pedro Delerue, Helena Dornellas Cysneiros Mem\u00f3rias perdidas, fragmentos recuperados, notas rasuradas em margens de p\u00e1ginas, imagens, ilustra\u00e7\u00f5es, gravuras, pe\u00e7as cer\u00e2micas, rica ou toscamente decoradas, pedra, madeira, osso, marfim, do mais nobre ao mais humilde material, tudo serviu, para o homem, em acto de venera\u00e7\u00e3o, ilustrar para a posterioridade, atravessando s\u00e9culos, mil\u00e9nios, &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"http:\/\/cpcsa.pt\/?page_id=1239\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Origem do C\u00e3o da Serra de Aires&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1239"}],"collection":[{"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1239"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1239\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1282,"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/1239\/revisions\/1282"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/cpcsa.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}